***_ArMaZZém de IdÉiAs_***

Sexta-feira, Setembro 28, 2007:

“Pois as pessoas são todas inteligentes à sua maneira; os grupos decepcionam com freqüência. Sabe-se que numa multidão as inteligências das pessoas, longe de se adicionar, tendem a se dividir. A burocracia e as formas de organização autoritárias asseguram uma certa coordenação, mas à custa da supressão das iniciativas e do aplainamento das singularidades.”

(Pierry Lévy)

BIBIANA RIGO // Sexta-feira, Setembro 28, 2007

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Sábado, Setembro 22, 2007:

Rumi, o poeta sufista.

Neste ano se celebram 800 anos de nascimento de Jalal ud-Din Rumi (1207-1273), o maior dos místicos islâmicos e extraordinário poeta do amor. Nasceu no Afeganistão, passou pelo Irã e viveu e morreu em Konia na Turquia.

Era um erudito professor de teologia, zeloso nos exercícios espirituais. Tudo mudou quando se encontrou com a figura misteriosa e fascinante do monge errante Shams de Tabriz. Como se diz na tradição sufi, foi "um encontro entre dois oceanos". Esse mestre misterioso iniciou Rumi na experiência mística do amor. Seu reconhecimento foi tão grande que lhe dedicou todo um livro com 3.230 versos o Divan de Shams de Tabriz. Divan signfica coleção de poemas.

A efusão do amor em Rumi é tão avassaladora que abraça tudo, o universo, a natureza, as pessoas e principalmente Deus. No fundo trata-se do único movimento do amor que não conhece divisões, mas que enlaça todas as coisas numa unidade última e radical tão bem expressa no poema Eu sou Tu : "Tu, que conheces Jalal ud-Din (nome de Rumi). Tu, o Um em tudo, diz quem sou. Diz:eu sou Tu". Ou o outro:" De mim não resta senão um nome, tudo o resto é Ele".

Essa experiência de união amorosa foi tão inspiradora que fez Rumi produzir uma obra de 40.00 versos. Famosos são o Masnavi (poemas de cunho reflexivo-teológico), Rubai-yat (Canção de amor por Deus) e o já citado Divan de Tabriz.

Próprio da experiência místico-amorosa é a embriagues do amor que faz do místico um "louco de Deus" como eram São Francisco de Assis, Santa Tereza d’Ávila, Santa Xênia da Rússia e também Rumi. Num poema do Rubai’yat diz: "hoje eu não estou ébrio, sou os milhares de ébrios da terra. Eu estou louco e amo todos os loucos, hoje".

Como expressão desta loucura divina inventou a sama a dança extática. Trata-se de dançar girando em torno de si e ao redor de um eixo que representa o sol. Cada dervixe girante, assim se chamam os dançantes, se sente como um planeta girando ao redor do sol que é Deus.

Dificilmente na história da mística universal encontramos poemas de amor com tal imediatez, sensibilidade e paixão que aqueles escritos pelo islâmico Rumi. É como uma fuga de mil motivos que vão e vêm sem cessar. Num poema de Rubai-yat canta: "Tu, único sol, vem! Sem Ti as flores murcham, vem!. Sem Ti o mundo não é senão pó e cinza. Este banquete e esta alegria, sem Ti, são totalmente vazios, vem!".

Um dos mais belos poemas, por sua densidade amorosa, me parece ser este, tirado do Rubai’yat: "O teu amor veio até meu coração e partiu feliz. Depois retornou, vestiu a veste do amor, mas mais uma vez foi embora. Timidamente lhe supliquei que ficasse comigo ao menos por alguns dias. Ele se sentou junto a mim e se esqueceu de partir".

A mística desafia a razão analítica. Ela a ultrapassa porque expressa a dimensão do espírito, aquele momento em que o ser humano se descobre a si mesmo como parte de um Todo, como projeto infinito e mistério abissal inexprimível. Bem notava o filósofo e matemático Ludwig Wittgenstein na proposição VI de seu Tractatus logico-philosophicus:"O inexeprimível se mostra, é o místico". E termina na proposição VII com esta frase lapidar: "Sobre o que não podemos falar, devemos calar". É o que fazem os místicos. Guardam o nobre silêncio ou então cantam como fez Rumi, mas de um modo tal que a palavra nos conduz ao silêncio reverente.

BIBIANA RIGO // Sábado, Setembro 22, 2007

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Segunda-feira, Setembro 17, 2007:

( Que saudades do Jayme....!)


DO TEMPO DO AMOR

(Reflexões a partir de um filme e de uma canção)

Chico Buarque já havia dito que amores seriam sempre amáveis. Entretanto, coube ao competente diretor de cinema argentino Alejandro Agrestí, reforçar o pensamento do mestre Carioca. Ao presentear seus espectadores com o americano “The Lake House” (A Casa do Lago), Agrestí mais uma vez refletiu a vida a partir da estética das minúcias humanas. Como havia feito em “Uma Noite com Sabrina Love” e em “Valentin”, há, novamente, uma delicada distância que separa pessoas que se amam. Se o amor do personagem interpretado pelo ator Tomás Fonzi está distante da sonhada noite com Sabrina Love, Valentin sofre pela distância ou inexistência do amor de sua mãe, carência a qual vê reproduzida em todas as mulheres de sua vida que, sempre passageiras – nunca permanecem consigo; sobretudo depois da perda da avó, única que o amou incondicionalmente. Em “A Casa do Lago”, o amor que separa os personagens Kate e Alex (que conseguiram resistir aos péssimos K. Reaves e S. Bullock) parece refletir exatamente a separação que se dá na vida de muitas pessoas no cotidiano. O tempo em que vivem o amor um pelo outro não é o mesmo. Dessa forma, o solipsismo afetivo parece ser o único destino possível. Mais do que cotidiano, o amor entre pessoas que até seriam em algum futuro – amantes, é mais corriqueiro do que Afrodite gostaria que fosse. Quantas vezes determinadas pessoas chegam a nossas vidas em um tempo no qual não é o tempo de recebe-las? Não estamos preparados para acolhermos e para nos permitir ser acolhidos... Pouco antes ou instantes depois... Essa barreira do “timing”, da chegada-do-outro em nossa vida, está entregue ao acaso nos deixar, ou não, na porta da casa daquele que amamos. Assim, podemos estar simplesmente nos dirigindo ao trabalho, ou indo à locadora a procura de um filme, e o grande amor de nossa vida estar no horizonte de sentido de nosso olhar, entretanto vivendo em um outro tempo que não o do desejado encontro. Quantas vezes, aliás, não imaginamos isso ao entrarmos na locadora e vermos alguém falando sobre um filme que também partilhamos afinidade. São inúmeras as situações nas quais ficamos imaginando quando essa alguma pessoas chegará, e constituirá, assim, o tempo do amor. Pois dispõe de um extremo realismo, neste ponto, o filme do argentino, uma vez que esse é o desígnio principal de sua trama no lago. Embora se trate de um realismo mágico, ao melhor estilo Garcia Márquez, “A Casa do Lago” é de uma sensível recepção para todo aquele que já se indagou sobre o tempo do amor. A experiência da solidão, também, se vê como uma clara referência do diretor à imposição que a vida corriqueiramente nos implica. A dificuldade de viver a dimensão do encontro reflete a existência dos principais personagens do diretor portenho. A câmera de Agrestí, nesse detalhe, é um espelho da realidade do homem contemporâneo – seus personagens estão jogados em meio à melancólica poesia que é o desencontro. No retorno a Chico Buarque, parece que a canção “Futuros Amantes” deveria ser a trilha sonora de todo o filme do argentino. Nela, Chico cria a figura que o amor são partículas soltas no Tempo, as quais cabem aos amantes apropriarem-se para amar. Assim, quando essas partículas são apropriadas por um casal apaixonado – o amor se faz presente entre eles. Acontece que essas partículas de amor, em alguns casos, vão embora, voltando a restarem soltas no Tempo. Transcorrido determinado tempo, outros pares apropriam-se daquela mesma partícula, elo no passado da união de outros amantes. Por isso “Amores serão sempre amáveis, futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber, com o amor que eu um dia deixei para você”... Quando Chico diz ainda: “Não se afobe não, que nada é para já, amores serão sempre amáveis”, pode-se vislumbrar o casal do filme de Agrestí, trocando suas cartas mágicas, tentando imaginar quando poderão se apropriar das partículas de amor que tantos outros já provaram. Tanto a canção – quanto a película, se confundem na perspectiva de dizer que há o tempo do amor; e que devemos estar abertos, para experimentá-lo, quando presente na porta de nossas vidas.

Por Jayme Camargo da Silva – jaymeanao@hotmail.com

Futuros Amantes – Chico Buarque

Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você


BIBIANA RIGO // Segunda-feira, Setembro 17, 2007

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